“Tava nas matas dormindo
Numa rede de cipΓ³
Quando eu ouvi foi um grito
Tenha pena, tenha dΓ³
Quem dela tem pena?
Quem dela tem dΓ³?
Foram sete homens para uma mulher sΓ³
Foram sete homens para lhe bater
Mas ela resignada nΓ£o deu seu braΓ§o a torcer
Ahhhh, eu vou me balanΓ§ar
Vou trabalhar no GongΓ‘”
Por: Ana Paula Campos
NΓ£o tenho pretensΓ£o de escrever um texto de cunho religioso. NΓ£o acho que tenha conhecimento dos fundamentos para isso. Antes, pretendo trazer um depoimento de amor e gratidΓ£o a esta senhora que, ao longo dos anos, se tornou mais que uma guia espiritual, mas uma amiga querida.
EstΓ‘vamos numa gira de Exu. Como ekedi, eu estava atendendo as entidades em suas necessidades quando um dos irmΓ£os grita de longe para mim: “Ana, olha! Giovana estΓ‘ incorporando!” Era Boca da Mata que girava, danΓ§ava e ria com tanta elegΓ’ncia que chamou a atenΓ§Γ£o de todos. Nesse momento, eu nΓ£o sabia se chorava, acendia o cigarro de Exu Caveira ou perguntava Γ dona Boca da Mata se queria uma bebida. Que agonia linda. Ela me disse que nΓ£o. “A mocinha Γ© muito novinha para beber e fumar”. Apesar de sabermos que o guia leva a fumaΓ§a quando vai, achei bonito o cuidado dela com Gigi.
Aos poucos, Gigi foi desenvolvendo e as conversas com esta entidade foram ficando cada vez mais fluidas. De inΓcio, ela vinha e ficava calada, observando, enquanto eu ficava ao seu lado na expectativa de um conselho. Hoje, Γ© difΓcil fazΓͺ-la ficar quieta… rsrs. BobΓ΄, como carinhosamente chamamos agora, Γ© uma menina, uma mocinha mais ou menos da idade de Gigi, entΓ£o, o juΓzo das duas estΓ‘ ali naquela mΓ©dia: praticamente nΓ£o tΓͺm… rsrs.
Para quem jΓ‘ estΓ‘ se aborrecendo com minhas brincadeiras, eu preciso lembrar que iniciei este texto advertindo que nΓ£o se trata de nada muito religioso. NΓ£o encare como falta de respeito e vocΓͺ que nΓ£o a conhece, nΓ£o descredibilize sua forΓ§a pela forma bem-humorada como a descrevo. Boca da Mata Γ© uma das Pombagiras mais poderosas que jΓ‘ conheci na vida, mas o nosso convΓvio nΓ£o se limita a feitiΓ§os e grandes realizaΓ§Γ΅es. Ela de verdade se tornou minha melhor amiga. Aquela que ficou ao meu lado quando mais precisei. A senhora que me obrigou a ficar diante de um espelho por meia hora, depois de passar um batom vermelho vibrante em mim e me fazer repetir em lΓ‘grimas, com convicΓ§Γ£o: EU SOU BONITA!
Quando eu ouvi seu ponto pela primeira vez, nΓ£o consegui cantar sem chorar. Disse-lhe que nΓ£o tinha condiΓ§Γ΅es de recebΓͺ-la cantando porque nΓ£o gostava de relembrar todas as vezes aquilo que ela passou. O ponto fala em sete homens que lhe batiam, mas sabemos muito bem a que ele se refere. Diante disso, fico alguns momentos pensativa. Como podem algumas pessoas ter medo dela? Como podem chamΓ‘-la de demΓ΄nio? Ela, uma indΓgena que foi torturada, estuprada e largada para morrer no mato. As pessoas tΓͺm medo de uma mulher que foi assassinada, mas nΓ£o dos homens que a mataram.
Num paΓs que abusa e mata centenas de mulheres diariamente, nossa preocupaΓ§Γ£o deveria ser acolher estas mulheres e evitar que outras tantas passem por outras violΓͺncias. Se a preocupaΓ§Γ£o Γ© de fato com a vida, por que vidas indΓgenas de mulheres, idosos e crianΓ§as nΓ£o estΓ£o no centro do debate das propostas dos polΓticos e governantes? HΓ‘ dΓ©cadas que lutamos por demarcaΓ§Γ΅es de terra e leis mais rigorosas contra garimpos ilegais, mas a impressΓ£o que dΓ‘ Γ© que a comoΓ§Γ£o dos nΓ£o indΓgenas sΓ³ dura enquanto as fotos rolam pelo feed do Instagram.
NΓ£o dΓ‘ para cultuarmos estas senhoras nos terreiros e fazermos reverΓͺncias, oferecendo as melhores bebidas e cigarros, se, no final das contas, fechamos os olhos para todas as violΓͺncias que mulheres estΓ£o sofrendo, muitas vezes em silΓͺncio. Boca da Mata, mais que uma grande feiticeira, foi uma mulher que morreu e escolheu retornar como Pombagira para que nenhuma outra mulher precisasse passar pelo que ela passou. Infelizmente, essa Γ© uma luta estrutural e precisamos ser menos hipΓ³critas e mais acolhedores com todas as Marias que nos rodeiam. Salve a nossa forΓ§a!
Obrigada, BobΓ΄, por ser minha amiga e por todas as vezes que segurou a minha mΓ£o, nΓ£o deixando que eu me perdesse de mim. Te amo!
Fonte: Saiba mais
